B O L E T I M Número 74 de Julho 2007 - Ano VII

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O p i n i ã o  

  • A Vós a Razão
  • Colaborador afirma: "Na minha opinião, o INESC Porto LA tem assumido um papel cada vez mais activo na divulgação e promoção de ciência, exercendo uma estreita relação com os órgãos de comunicação social..."

  • Asneira livre
  • Colaborador propõe: "Levando os troféus ainda mais a sério, seria bastante recompensador ver o nome da equipa vencedora na taça, e do jogador vencedor na respectiva medalha".

  • Galeria do Insólito
  • O INESC Porto tem atletas de alta competição? Para que não haja dúvidas preste atenção à foto... Identifica? Pois leia.

  • Biptoon
  • Mais cenas de como bamos indo porreiros...

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A  V Ó S  A  R A Z Ã O


Promoção e Divulgação de Ciência

Imagem Principal Artigo

Por Filipe Magalhães*

Frequentei no passado mês, em conjunto com outros colaboradores, uma formação sobre “Promoção e Divulgação de Ciência”, onde foi maioritariamente abordado o papel dos cientistas (ou investigadores se preferirem) na difusão de ciência pela população em geral.

Imaginem-se num autocarro a realizar um inquérito sobre a imagem que de um modo geral as pessoas formulam acerca de um cientista... De certeza que a grande maioria vos iria descrever um senhor já com alguma idade, totalmente desgrenhado, com óculos “fundo de garrafa”, envergando uma bata e a tropeçar em ratinhos e tubos de ensaio borbulhantes espalhados por todo o lado. No entanto, esta descrição não corresponde de todo à realidade e certamente nenhum de nós com ela se identifica.

Mas o que falhou para que a ideia generalizada seja essa? Sem dúvida, os media e os conteúdos direccionados aos mais jovens assumem aqui um papel preponderante. E não será esta também uma causa da aversão generalizada perante a ciência? Eu julgo que sim. Todos acham muito engraçado, mas “Para mim não!”...

O que pode ser feito para de algum modo inverter esta corrente? Ora aí está algo que a todos nos compete como cientistas. Uma das coisas que aprendi nesta formação é que nem sempre o que para nós é vistoso e relevante o será também para os restantes. O que o público em geral gosta de ouvir falar é de €€€, de curas e dietas milagrosas (ainda para mais agora na época do Verão :), de algo que beneficie o seu dia-a-dia...

Que relevância darão a uma notícia sobre uma combinação molecular que permitirá, no prazo de 15 anos, comercializar um medicamento para a asma? Não acharão mais interessante saber que Brian May, guitarrista dos Queen, está agora a concluir o seu doutoramento em astrofísica e que o seu interesse por esta área surgiu em miúdo ao ver um programa de TV?

Recordo-me de ver, numa edição passada deste boletim, um artigo intitulado “A Arte e o INESC Porto”. Porque não dar a conhecer esse lado dos colaboradores do INESC Porto LA ao público em geral? Creio que a curiosidade é o grande motor do conhecimento!

Na minha opinião, o INESC Porto LA tem assumido um papel cada vez mais activo na divulgação e promoção de ciência, exercendo uma estreita relação com os órgãos de comunicação social (onde é de realçar a assídua participação do Prof. Pedro Guedes de Oliveira no programa televisivo 4×Ciência) e levando a cabo projectos como o PROTET, entre outros.

Porém, alturas houve em que não esteve tão bem. Recordo o caso da 5.ª Mostra da U.Porto, onde o interesse dos visitantes pelo nosso stand (apesar do elevado valor científico do trabalho exposto) foi praticamente nulo. Esta foi indubitavelmente uma excelente oportunidade de promoção, que a meu ver deixamos escapar.

Um livro de recortes de imprensa relativos ao INESC Porto LA já é disponibilizado no bar, mas porque não afixar as notícias recentemente publicadas de um modo mais apelativo e que permita a sua consulta de forma mais imediata? Estou certo de que todos sentimos orgulho ao ver uma notícia sobre o nosso instituto e esta era também uma forma de sabermos o que se faz “entre portas” (o que já foi apontado como uma dificuldade).

Pelo que pude constatar na formação, temos muito bons comunicadores no INESC Porto LA (e certamente serão muitos mais), o que, em conjunto com a actividade científica que aqui se desenrola, propicia mais do que motivos para promovermos ciência junto da sociedade, atendendo assim à tendência emergente “Ciência na Sociedade”, em detrimento da visão paralela anterior “Ciência e Sociedade”.

Por fim, gostaria de agradecer o convite para escrever este artigo e de felicitar a equipa do BIP pela excelente qualidade de trabalho a que já nos acostumaram.



* Colaborador da Unidade de Optoelectrónica e Sistemas Electrónicos (UOSE)


CONSULTOR DO LEITOR COMENTA

Caro Filipe, é bom que tenhas compreendido que a percepção social da ciência e dos cientistas não pode ser apreciada pela bitola dos mesmos. A valorização da ciência é um fenómeno social e não químico e envolve incerteza e riscos, não é determinístico.

Um dos factores de mudança essenciais é a linguagem. Falar para leigos não é o mesmo que falar para a comunidade fechada dos eleitos. Falar para desconhecedores da arte do ofício implica o exercício de humildade de mudar de linguagem, e adoptar a linguagem do outro.

É como ser emigrante: é preciso aprender o idioma do país que nos acolhe. Assim também os cientistas têm que despir-se daquela arrogância do vocabulário hermético e do rigor que só tem sentido no contexto profissional estrito, e aprender a falar de acordo com o ponto de vista do outro: os seus interesses, os seus anseios e receios, os seus sonhos e necessidades.

Isto não é fácil. Falar de modo simples não é fácil,  Fácil, é tornar difícil algo simples. Difícil, mas temos que o fazer, é transformar em simples aquilo que levámos anos a aprender que é difícil. Por isso, para mudar a imagem da ciência e dos cientistas não podemos continuar a falar como cientistas distraídos de óculos de fundo de garrafa (adorei a metáfora) e bata asséptica.

Para mudar a nossa imagem, temos que começar por mudar alguns dos nossos hábitos - aqueles que nos fazem a imagem que não queremos mas que, afinal, ainda muitas vezes somos.



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