B O L E T I M Número 83 de Maio 2008 - Ano VIII

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  • Colaborador afirma: " As grandes descobertas podem ser localizadas, mas o conhecimento ultrapassa fronteiras"...

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A  V Ó S  A  R A Z Ã O


Super-valorizar o que é do outro

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Por Hermes Monego*

Quando fui convidado para escrever algo para esta coluna, chamou-me a atenção logo de início este tema. Valorizar aquilo que os outros fazem em detrimento daquilo que fazemos, isto parece-me um problema latino, sobretudo portugueses e brasileiros que são as duas realidades que conheço.

Eu explico, será que as pesquisas realizadas em países como Inglaterra, Alemanha, Japão ou Estados Unidos são melhores do que as que fazemos? Sim, de certa forma, isto é parcialmente verdade, mas não nos devemos esquecer que a maioria dos cérebros que lá estão podem não ser cidadãos daquele país e sim estrangeiros, motivados talvez por oportunidades que o seu país de origem não lhes pode oferecer por uma razão qualquer.

Os motivos podem ser, desde a falta de recursos ou até mesmo a absorção de conhecimento, o que me parece, no caso deste último termo, ser o mais relevante nos dias de hoje. As grandes potências podem dar ao pesquisador (investigador) mais facilidades no desenvolvimento de suas pesquisas, no que tange aos recursos financeiros, mas o mérito é pessoal.

O que gostaria de dizer é que as grandes descobertas podem ser localizadas, mas o conhecimento ultrapassa fronteiras. Acho que devemos deixar de lado tudo isso e começar a mentalizar-nos que o que fazemos é tão importante quanto aquilo que os outros fazem, principalmente porque foi feito por nós. Vocês concordam com esta ideia?

* Colaborador da Unidade de Telecomunicações e Multimédia (UTM)

O CONSULTOR COMENTA:
Hermes é o deus grego mercurial, de asas nos pés, protector de comerciantes e ladrões, inventor da lira e da flauta de Pã, mensageiro sobretudo das vontades divinas. Era-lhe atribuído o dom da adivinhação e por isso te pergunto: que vês no nosso futuro?

Na verdade, poder-se-ia argumentar que no teu texto encontrei um pouco de passado. Principalmente na nostalgia romântica de que as descobertas valem por si só, de que são o produto individual do esforço de dedicados ou iluminados. Assim terá sido, por séculos fora, quando a ciência se misturava com a tecnologia na mesma pessoa. Na verdade, Da Vinci terá sido o último dos cientistas ecléticos, numa época em que a palavra cientista ainda não tinha sido inventada. A partir da emergência da ciência racional e positiva, não mais se pode identificar um cidadão que tenha acumulado vastas áreas do saber e arte tão distintas e ainda a arte de conceber e realizar objectos. Leonardo era um proto-engenheiro.

A cultura luso e brasileira sofre de um mesmo síndroma comum, espécie de pecado original. Ele resulta dos valores de uma sociedade por demasiado tempo rural e comerciante. Culturalmente, o nicho de sobrevivência dos portugueses foi sempre o comércio e não a indústria, foi o tráfico e não a produção. Apesar das glórias do Império, foi um império de merceeiros e mineiros e não de transformadores de valor acrescentado. A Índia servia para trocar pimenta por tecidos e mau vinho, o Brasil para extrair minério apenas para o vender. Produção, produção, apenas a agrícola.

Para esta civilização sobreviver, precisava de apetrechar-se de manha, de habilidade na empatia, de capacidade de adaptação às condições locais, de compreensão dos canais das emoções. Não de conhecimento. Uma grande potência pode dar-se ao luxo de ter inimigos, uma pequena não deve fazê-los e não pode prescindir de ter muitos amigos. Ser rural é produzir bens básicos sem ameaçar ninguém, ser comerciante é dar a sensação que se é útil a terceiros.

De certo modo, Portugal não soube ser Império e o Brasil ainda não sabe. A nossa civilização, lusa e brasileira, tardou a industrializar-se. Por via da inquisição, que matou a liberdade de pensamento. Mas pode argumentar-se que o próprio Santo Ofício encontrou terreno fértil para assentar raízes.

Por isso, valorizamos mais o estratagema, o jeitinho, do que o sistema.

Ora os nossos compatriotas, que elogias, que têm êxito nos países que citaste, todos industrializados (ou foi por acaso?), não beneficiam de serem mais inteligentes do que os que ficam: usufruem de um sistema que transforma o conhecimento em concretização. É um sistema cultural e social.

Nós dizemos demasiado mal de nós, e é injusto, já que andámos por aqui quase há mil anos, portugueses e brasileiros, frutos da mesma cepa original, e o mesmo não podem dizer outros povos que hoje incham da sua temporária superioridade. Alguma virtude há-de ter a nossa forma de estar, não te parece?

No entretanto, uma dose de modéstia não nos faria mal. Exibimos, por vezes, a arrogância dos humildes. Dizer mal de nós mesmos é um arrojo de exibição, quem assim mal fala parece que se arroga a superioridade moral de ditar julgamento, ainda que em causa própria. Nós não somos assim tão bons que possamos classificar-nos de maus.

O que ainda nos falta, é um sistema orientado para multiplicar o efeito do conhecimento. Assim sendo, o próprio conhecimento granjeará mais respeito social e será finalmente mais valorizado que a esperteza do mercador.

Ora o que convinha ver é o que podemos aproveitar, das culturas de produção, para aumentar a nossa capacidade como cultura da movimentação. Buscar, como Singapura (reservadas as distâncias da excessiva comparação), a síntese virtuosa das características de duas civilizações.



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