B O L E T I M Número 75 de Setembro 2007 - Ano VII

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D E S T A Q U E

José Carlos Príncipe galardoado pelo IEEE

“Dá-me gozo perceber e explicar ao mundo algo que nunca ninguém tinha pensado”

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José Carlos Príncipe é o coordenador da Comissão Internacional de Acompanhamento Científico do INESC Porto, lecciona na Universidade da Florida nos EUA, e é professor catedrático convidado da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto, entre outros cargos. Com cinco patentes concedidas, quatro livros editados, autoria de 14 capítulos em publicações especializadas, 116 artigos em revistas e participação em 276 conferências, supervisão de 50 Doutoramentos e 61 Mestrados, recebe agora o “2007 IEEE Engineering in Medicine and Biology Society Career Achievement Award”.

Criado em 1884, o IEEE (Institute of Electrical and Electronics Engineers) é a maior sociedade técnica mundial, contando com 370 mil membros. A contribuição e feitos excepcionais na área da Engenharia Biomédica deste investigador foi reconhecida pelo IEEE a 24 de Agosto em Lyon, França, durante a 29ª Annual International Conference IEEE Engineering in Medicine and Biology Society.

O BIP entrevistou o coordenador galardoado e descobriu que este prémio, convertido no ponto mais alto da carreira de José Carlos Príncipe, é visto pelo próprio como um motor de uma cada vez maior dedicação à área da engenharia biomédica. O professor admite que desde sempre teve gosto em “inventar soluções e formalizar novas ideias”, mas foi a experiência de 20 anos a investigar no estrangeiro que o fez crescer. “Agora controlo melhor a bola que tenho em cima dos ombros”, metaforiza o investigador.

Começou a colaborar com o pólo de Aveiro do INESC na década de 80, e desde essa altura tem mantido intactos os laços que o ligam à instituição que criou um “ponto de viragem fundamental na maneira de fazer investigação em Portugal”. José Carlos Príncipe acredita que o INESC Porto herdou esse pioneirismo e tem sabido aproveitar a sua capacidade de inovação. “O INESC Porto tem futuro”, por isso deve “construir apostas a 10 anos que lhe permitam bater-se com os melhores”, aconselha o professor.

BIP - Tão jovem e já recebe o prémio carreira do IEEE. O que significou para si este prémio?
José Carlos Príncipe
- Este prémio foi para mim o ponto alto da minha carreira científica pois os anteriores galardoados fazem parte do grupo de pioneiros que criaram a disciplina de engenharia biomédica como nós a conhecemos hoje. Por isso sinto-me até um pouco desconfortável ao ser incluído entre eles. E quer dizer que vou ter de ainda trabalhar mais eficazmente até ao fim da minha carreira para não ser um outlier...

BIP - O que sonhava ser quando era criança? Alguma vez imaginou dedicar 20 anos da sua vida à engenharia biomédica?
JCP - Sempre gostei de perceber como as coisas funcionavam, por isso uma profissão de engenharia diz bem com este interesse, mas podia também ter sido físico. A engenharia cria contudo novas realidades, o que me sempre me seduziu mais do que explicar aquela em que vivemos. Por isso inventar soluções ou formalizar novas ideias é um enorme prazer.

Quando saí de Portugal para estudos pós-graduados, o meu objectivo era estudar micro-ondas, mas o professor com quem ia trabalhar foi em sabática e eu tive de arranjar novos projectos. Interessei-me então por processamento digital do sinal biomédico que tinha começado a ser tratado nos meados dos anos 70. Mas nunca pensei dedicar-me a este problema durante 20 anos (e não vai acabar aqui!).

BIP - O que o realiza no seu trabalho?
JPC
- Várias coisas. A primeira (bem à frente de todas as outras) é o privilégio de interagir com pessoas inteligentes e motivadas. Os nossos alunos de doutoramento são como “nossos filhos intelectuais”, que ajudamos a crescer. A segunda é o gozo de perceber e explicar para o mundo algo que nunca ninguém tinha pensado. E a terceira é o de ver estas contribuições a serem usadas para bem da sociedade.

BIP - O que mudou em si, como ser humano e investigador, nestes muitos anos em que viveu na Florida?
JPC
- A experiência destes anos todos ensinou-me obviamente a metodologia, e ajudou-me a fazer perguntas que podem ser respondidas pelo método cientifico. Por isso cresci bastante, isto é, controlo melhor a bola que tenho em cima dos ombros. Tenho a certeza que isto acontece a toda a gente, independentemente de onde trabalham, mas a vantagem de ter ido para os USA é ter mudado o meu termo de comparação.

Sabe que a cultura é muito semelhante à terra de um sistema eléctrico, onde todas as medidas de tensão são feitas relativamente ao seu valor. Por isso, quando se muda a cultura, tem-se uma visão totalmente diferente da realidade. Neste momento sinto-me um observador externo tanto da cultura portuguesa como da americana... o que é às vezes desconfortável, mas por outro lado fascinante, pois percebo imediatamente os pontos fortes e fracos dos sistemas!

BIP - Como começou a colaborar com o INESC Porto? Recorda-se de como foi feita a aproximação ao nosso instituto? Foi em que ano?
JPC
- Não me lembro dos detalhes, mas recordo-me que o grupo de Aveiro em que me incluía foi um dos primeiros a integrar o INESC com um projecto chamado TIAS (Tecnologias de Informação Aplicadas à Saúde). Éramos as tias da província... isto no princípio da década de 80. Depois o INESC fraccionou-se já comigo no estrangeiro e eu naturalmente interessei-me mais pelo INESC Norte agora INESC Porto. Mas faço também parte da Comissão de Acompanhamento Científico do INESC ID de Lisboa. O INESC foi um ponto de viragem fundamental na maneira de fazer investigação em Portugal, por isso era incontornável.

BIP - Sendo a Comissão a que preside no INESC Porto um órgão de avaliação e aconselhamento interno, e tendo o Professor uma visão alargada do estado das instituições de I&D a nível internacional, que conselho imediato lhe ocorre dar ao INESC Porto?
JPC
- Construir apostas a 10 anos que permitam ao INESC Porto bater-se com os melhores. Mesmo que seja numa área estreita, já que as verbas e as pessoas são limitadas.

BIP - Como vê o novo Modelo Organizativo do INESC Porto? E que futuro antevê para o nosso instituto?
JCP
- A vantagem do futuro é que vem um dia de cada vez, isto é, pode sempre aprender-se com os próprios erros. O grande desafio que se coloca ao INESC Porto é saber se o modelo actual é scalable para uma outra dimensão. Provavelmente não é, e por isso é necessário avaliar as experiências que se vão fazendo. O pior que pode acontecer é mudar de modelo e não avaliar o que foi feito.

O futuro do INESC Porto está directamente ligado à capacidade de liderança de investigação, mobilização de recursos e ter um plano de intervenção tecnológica numa sociedade muito peculiar. Importar modelos é fácil, mas só alguns funcionam... e normalmente têm de ser criados sobre a realidade local. Por isso o INESC Porto tem futuro!

BIP - Espera regressar um dia da Florida? Tem saudades do Porto e de Portugal? Do que sente mais falta? E menos?
JCP - A grande falácia da minha vida foi o horizonte virtual. Tenciono sempre regressar dentro de dois anos... sem me aperceber que há coisas que não se podem adiar, tem de se decidir no momento.

Gosto muito de andar nas ruas do Porto e de apreciar como vivemos. O que mais sinto falta é da família e dos amigos. O que não me faz falta nenhuma é o velho do Restelo!



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