B O L E T I M Número 77 de Novembro 2007 - Ano VII

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O p i n i ã o  

  • A Vós a Razão
  • Colaborador afirma: "A mudança que precisamos de influenciar tem também de passar por mudanças em nós próprios; a horizontalidade de certas áreas de intervenção obriga a rearranjos e, porventura, a alianças...

  • Asneira livre
  • Colaboradora revela: "Devo dizer que no seu todo, o stand causava algum impacto: o sapato de senhora colocado no plinto da UESP deliciou muitas meninas e senhoras da feira..."

  • Galeria do Insólito
  • Se o sapato exposto nas jornadas falasse, teria muito para contar – especialmente sobre a quantidade de mulheres que se encantaram e mexiam nele...

  • Biptoon
  • Mais cenas de como bamos indo porreiros...

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A  V Ó S  A  R A Z Ã O


Tempos de mudança

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Por Pedro Guedes de Oliveira*

Mesmo para aqueles de nós, Inesquianos, que não são universitários—e ainda bem que são muitos, já que eu acho que desta mescla de gente é que tem vindo muito do nosso enriquecimento—, o processo de renovação das universidades, exigido pelo RJIES (o Regime Jurídico das Instituições do Ensino Superior), não pode ser indiferente.

Não vou discutir aqui as virtualidades ou defeitos do diploma; interessa-me muito mais discutir a oportunidade de mudança que ele traz e como é que a universidade por um lado e nós, como Laboratório Associado, por outro, estamos preparados para reagir.

E, confesso, olho para isto tudo com bastante apreensão. A universidade portuguesa atravessa um período com muitos riscos. A competição mais ou menos paroquial a que estava habituada, está morta. Hoje, ou se posiciona para competir numa perspectiva mundial (ou, pelo menos, europeia) ou tornar-se-á numa universidade de pré-graduação, com influência num curto raio à sua volta, mas mais ou menos irrelevante no plano internacional, onde o jogo realmente se joga.

Ora isto exige muito atrevimento e desprendimento, coragem para dar o salto para um plano de exigência onde, a maior parte de nós vai ter muito mais dificuldades.

Mas por que não? Nenhuma razão há para nos podermos considerar menos do que os outros. A questão é apenas de organização, visão, liderança e ambição e, evidentemente, muito muito trabalho. Se fosse possível mantermo-nos no quentinho, sem sobressaltos, olhando à volta e dizendo contentinhos que até não estamos muito mal, eu acho que era desculpável.

Foi, em larga medida, precisamente isso que foi acontecendo e, apesar de tudo, temos progredido, vamos fazendo uma formação muito decente e a dedicação, a disponibilidade, o apoio aos alunos, as condições de trabalho, etc. melhoraram significativamente.

Mas falta dar o salto. Temos de procurar trazer para dentro o que de melhor conseguirmos, quer a nível de professores, quer de investigadores, quer de alunos. E isso não é fácil até porque o mesmo jogo está a ser jogado por muitos outros.

O que fazer, então, para o conseguirmos? Na minha opinião, fazer escolhas; criar massas críticas; ser capaz de dizer que sim aqui e que não acolá; não estar obcecado com que todos façam o mesmo caminho, independente de o merecerem ou não, de terem ou não as mesmas capacidades, mas apenas para evitarmos confrontações de que parece sempre que temos medo.

Ora, neste panorama, o papel das instituições de I&D e, em particular dos Laboratórios Associados, tem de ser muito importante. Não que eles sejam em si mesmos e de modo absoluto, necessariamente melhores do que a universidade que, em larga medida, os alimenta; mas o que acontece é que o modelo organizativo se desenvolveu de modo muito mais avançado, criando condições de “accountablility” a que, na universidade, não se estava habituado.

Mas não chega; a mudança que precisamos de influenciar tem também de passar por mudanças em nós próprios; a horizontalidade de certas áreas de intervenção obriga a rearranjos e, porventura, a alianças que nos aumentem a capacidade e permitam atingir massas críticas. Não há espaços para visões tacanhas e bairristas. O que, entre nós, se tem vindo a fazer através da abertura a outras áreas e grupos é, a meu ver, correcto e corajoso.

Mas é porque tudo isto é difícil, porque há sempre em todos nós um fundo muito conservador, porque nos habituámos, culturalmente, aos “brandos costumes”, que eu estou apreensivo. Mas é também nestas alturas de risco que se geram as grandes oportunidades.

*Consultor de Direcção do INESC Porto

CONSULTOR DO LEITOR COMENTA

Caro Pedro, ler a tua razão é como ler a Bíblia (ou o Corão, ou a Tora, ou os Vedas). Está lá tudo se quisermos ler da forma conveniente. Ou não está lá nada. Falas com clareza meridiana mas falarás para quem te escute?

O processo aberto pelo novo RJIES tem esta virtude inigualável: força roturas, cria tensões. Mas a rotura não é por si só virtuosa, virtuoso há-de ser o caminho que escolhermos, ou não. Isto dito, considero de sábia política introduzir gradientes novos em sistemas estabilizados (ou melhor, paralisados). Sabemos das lições do Darwinismo que a evolução nos surpreende quando as espécies são confrontadas com ambientes alterados. Abençoado meteoro, portanto. Foi catástrofe para os sáurios, génesis para nós.

O papel dos institutos como o INESC Porto pode vir a ser importantíssimo, porque não é preciso inventar demais, já temos experiência avançada que pode verter no novo modelo. Não sei discordar de ti, vi com agrado o INESC Porto abrir-se a outras áreas e, portanto, a transformar-se: sem deixar de ser o mesmo, já não é o mesmo.

Mas estarão todos dispostos a escutar a tua voz e a tua razão?

Cabe-nos a todos relembrar que os outros precisam que lhes lembremos de nós.



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