B o l e t i m Número : 4 1 ( interno ) / 2 7 ( público ) Junho 2004
 
 


O p i n i ã o

A Vós a Razão
A propósito da secção Especial do último BIP, leitor apresenta uma alternativa para substituir a medida que pretende atribuir um prémio monetário por publicação científica.»

Galeria do Insólito
O BIP está quase, quase a ser a próxima vítima do proselitismo da seita dos adoradores da relva da vida. Esta seita conta já com cerca de 10 seguidores no INESC Porto e promete não parar...»

Asneira Livre
No contexto da discussão da proposta de Regulamento do Horário de Trabalho do INESC Porto, leitora recorda uma passagem de um livro que leu em tempos que retrata a atitude do português face ao trabalho »

Biptoon
Bamos Indo Porreiros »

Especial
Por sugestão de vários leitores, o BIP resolveu dedicar esta secção ao Bar do INESC Porto. Para conhecermos a opinião generalizada dos inesquianos sobre os serviços prestados pelo Bar, pedimos que respondessem a algumas questões. A adesão foi muito positiva!»

Notícias »

 

O trabalhador português visto por um americano


 Por Graça Barbosa *

A propósito da discussão da proposta de Regulamento do Horário de Trabalho do INESC Porto, e enquanto me espantava com algumas críticas à fixação de períodos de presença obrigatória, veio subitamente à minha memória uma passagem de um livro que lera em tempos, à qual tinha achado muita graça e que, ressalvadas as óbvias diferenças, me parece retratar bastante bem a atitude do português face ao trabalho. Não resisto a transcrever essa passagem, apelando ao vosso sentido de humor e capacidade de auto-crítica, que é sempre salutar!

Contextualizando, o livro intitula-se “Uma casa em Portugal”, e descreve a “saga” de um americano para comprar, legalizar e recuperar uma pitoresca casinha em ruínas, situada numa aldeola do concelho de Sintra. Para as obras de recuperação da casa, o americano recorreu a mão-de-obra local! António era o principal “artista” contratado para esse fim. Então, cá vai o desabafo do americano:

“António chegava por volta das oito - a não ser, claro, que não chegasse. Tivéramos uma longa discussão, semanas antes, a respeito do seu comparecimento ao trabalho. Tentara impor-lhe os meus pontos de vista, de orientação muito americana, acerca de confiabilidade e pontualidade. Ele parecera escutar-me com seriedade e atenção e repetira a intenção de vir trabalhar todos os dias. E, quando não vinha, escolhia entre o seu vasto repertório de justificações e apresentava a que lhe parecia mais adequada às circunstâncias. Havia sementeiras de batatas, podas de videiras, sulfatagens de vinhas, apanhas de cogumelos e uma longa série de falecimentos de familiares distantes, cujo exacto grau de parentesco António não sabia precisar. (...)

À medida que o padrão de ausências de António se tornou mais metódico, fui aprendendo a compreender e definir a motivação intrínseca do trabalhador português. Para começar, o factor mais importante era a vida. Não se devia perder nada, fosse um nascimento, um casamento, uma morte ou qualquer acontecimento importante - este “qualquer outro” abrangia uma vasta nebulosa de circunstâncias, incluindo os primeiros passos de um bebé, jogos de futebol e até episódios de algumas novelas. Tudo tinha precedência sobre a vida “profissional”, relegando o trabalho para a categoria das coisas que uma pessoa “podia” fazer se nesse dia não surgisse nenhuma outra opção. Como o António observava com frequência, o trabalho podia sempre esperar. Não havia absolutamente nada no mundo que não pudesse ser feito amanhã ou para a semana.(...)

De início revoltei-me com essa filosofia. Mas pouco a pouco fui vendo a minha ética de trabalho como algo engendrado em mim pela minha educação, algo ensinado e reforçado ao longo dos anos. E, ao examinar estas convicções firmemente enraizadas, cheguei à conclusão de que, no fim de contas, não eram mais válidas do que aquelas que censurava a António.” (Richard Hewitt, Uma casa em Portugal, 1 edição, Gradiva, Julho de 1997, pp.95 e 96).

E mais palavras para quê? É um “artista” português!.

* Responsável do DIL (Departamento de Informação e Logística) 

 

Asneira livre

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