INESC Porto
Boletim INESC Porto
 
B o l e t i m Número : 4 1 ( interno ) / 2 7 ( público ) Junho 2004
 
 


O p i n i ã o

A Vós a Razão
A propósito da secção Especial do último BIP, leitor apresenta uma alternativa para substituir a medida que pretende atribuir um prémio monetário por publicação científica.»

Galeria do Insólito
O BIP está quase, quase a ser a próxima vítima do proselitismo da seita dos adoradores da relva da vida. Esta seita conta já com cerca de 10 seguidores no INESC Porto e promete não parar...»

Asneira Livre
No contexto da discussão da proposta de Regulamento do Horário de Trabalho do INESC Porto, leitora recorda uma passagem de um livro que leu em tempos que retrata a atitude do português face ao trabalho »

Biptoon
Bamos Indo Porreiros »

Especial
Por sugestão de vários leitores, o BIP resolveu dedicar esta secção ao Bar do INESC Porto. Para conhecermos a opinião generalizada dos inesquianos sobre os serviços prestados pelo Bar, pedimos que respondessem a algumas questões. A adesão foi muito positiva!»

Notícias »

 

E nós, não somos uma equipa?


Por Filipe Aranda de Sá * 

A última edição do BIP dedicou a secção Especial à discussão em torno da medida recentemente anunciada pela Direcção do INESC Porto de atribuir um prémio de publicação, que, nas palavras do Prof. Pedro Guedes de Oliveira, “...seria atribuído a todos os Inesquianos que publicassem um artigo numa das revistas internacionais que constam do Web of Science ou INSPEC”.

Nesta mesma edição do BIP tive a oportunidade de manifestar a minha total discordância em relação a esta medida, pelo que não irei repetir os meus argumentos. Porém, entendo que a minha crítica, que quero que seja construtiva, seja acompanhada de uma proposta alternativa; desta forma, gostaria de fazer uma sugestão à Direcção do INESC Porto, aproveitando este convite que me foi endereçado pelo BIP.

Tenho alguma dificuldade em perceber a lógica da atribuição deste “prémio de publicação”, mas penso entender os motivos que levaram a Direcção do INESC Porto a implementar esta medida. Se me é permitido especular um pouco, penso que esta medida poderá estar ligada com algumas preocupações que o INESC Porto possa ter em relação à renovação do estatuto de Laboratório Associado, e à avaliação periódica externa feita pelas comissões científicas independentes da FCT, temendo-se que a próxima avaliação não volte a ser Excelente e que o estatuto de Laboratório Associado não venha a ser renovado no próximo ano de 2006.

A não renovação do estatuto de Laboratório Associado implicará o cancelamento do Financiamento Programático do Laboratório Associado, e uma avaliação inferior a Excelente obrigará a uma diminuição do Financiamento Anual de Base do INESC Porto. Assim, parece-me pertinente que se implementem medidas que permitam alcançar os objectivos da instituição, que passarão seguramente por obter o maior financiamento e reconhecimento científico possível, e que necessariamente obrigam a uma forte motivação e a um grande empenho por parte de todos os Inesquianos.

Na minha opinião, os objectivos do INESC Porto só poderão ser dois: ter uma avaliação "Excelente" e renovar o estatuto de Laboratório Associado. Menos do que isto deverá ser encarado como uma derrota do INESC Porto, ou seja, de todos nós!

Assim, proponho que seja atribuído um prémio por objectivos a todos os colaboradores do INESC Porto, caso o resultado da próxima avaliação seja "Excelente" e se renove o estatuto de Laboratório Associado, em substituição desta medida que pretende atribuir um prémio monetário por publicação científica.

Desta forma, proponho que seja estabelecido um valor monetário a atribuir de forma igual ao universo dos colaboradores do INESC Porto (todos os escalões hierárquicos e categorias, sem excepção). O valor global deste prémio, que deverá substituir o “prémio de publicação”, poderá coincidir com o montante que se prevê vir a ser utilizado no “prémio de publicação” durante os próximos anos.

De uma forma análoga ao futebol - estou a escrever estas linhas algumas horas após o desaire da Selecção Portuguesa com a Grécia -, um jogador de futebol não ganha mais por marcar golos (seria aliás muito injusto, já que muitos jogadores, a começar pelo guarda-redes, não desempenham funções que lhes permitam facilmente fazê-lo), mas todos os jogadores de uma equipa auferem, de forma equitativa, um prémio de vitória, seja de um jogo, ou de um campeonato.

E nós, não somos uma equipa? Será que nesta equipa só contam os que marcam golos? Quero crer que não, e tenho a certeza que será possível marcar muitos golos, e com eles, contribuirmos para a vitória no nosso campeonato...

* Colaborador da Unidade de Optoelectrónica e Sistemas Electrónicos (UOSE)

O CONSULTOR DO LEITOR COMENTA

Caro Filipe,

Registo da tua contribuição o esforço meritório para ser construtivo. É uma atitude a sublinhar e cultivar porque, infelizmente, estamos mais habituados na cultura portuguesa contemporânea emissão de opiniões e prática de actos negativos e destrutivos ou, pelo menos, bloqueadores. O BIP deu uma contribuição clínica para esse diagnóstico ainda recentemente, com o seu BIPtoon dos caldeirões, se não te falha a memória.

Garanto-te, portanto, que a tua sugestão não caiu em caso roto. Aliás, se outra virtude não tivesse, haveria que reconhecer que o BIP também tem sido um instrumento para dar a voz a quem habitualmente possa pensar que não tem ou que a que tem não é escutada.

A tua opinião conta. A tua voz é escutada.

Obrigado por falares.

Não é à toa que esta rubrica se chama “a vós a razão”. Aliás, também em aspectos menos visíveis para a generalidade dos colaboradores isto se reflecte. Por exemplo: um colaborador escreveu-nos sugerindo que se fizesse um balanço do nosso Bar - pois cá está, neste número, um trabalho sobre esse assunto. Acreditamos que esta característica do nosso INESC Porto o torna mais robusto do que outras instituições, é uma força de coesão (que dava jeito que as pessoas reconhecessem, já agora - na verdade, tu exprimes a tua opinião livremente e nem te passa pela cabeça que teres publicamente uma opinião diferente da institucional te cause qualquer espécie de problemas, compreendes?).

Por isso, não compreendo a tua cruzada pessoal contra o prémio de publicação. Recordo de novo o BIPtoon dos caldeirões. Porque é que nós havemos de premiar (porque premiamos, com nomes variados mas premiamos) desempenhos de qualidade no cumprimento de obrigações, de execução de trabalhos contratuais, e nessa abrangência tanto contemplamos doutorados como bolseiros ou contratados, e não haveríamos de premiar quem faz trabalho de excelência de natureza científica?

É claro que me poderão argumentar: mas a excelência não se mede apenas pelas publicações. Pois não. Haverá, porém, outro critério independente e objectivo que seja aplicável na prática de forma sistemática?

Além disso, os ventos da História sopram nessa direcção. Em todos os países da OCDE se afirma este movimento de valorização das publicações em revistas. Talvez desconheças que o salário de um Professor universitário, em Espanha, está de uma certa forma dependente ou indexado, por escalões, ao número de publicações em revistas. Porque haveríamos de pretender estar imunes a isto?

O nosso INESC Porto é uma instituição de ciência e tecnologia. Quem produz ciência, e de uma forma que visível, objectiva e quantificadamente beneficia a instituição, conquista por justiça o direito a ser tratado da mesma forma que outros que, por outras vias, também beneficiam a instituição.

Caro Filipe, fizeste um diagnóstico parcial, mas ajustado nessa parte, sobre as motivações e implicações da decisão da DIP de premiar artigos. Há um esboço correcto da componente económica associada ao Estatuto de Laboratório Associado. Mas seria errado ver a questão só sob essa perspectiva. Porque interessa de muitas outras formas ao INESC Porto que possua excelência científica, e que essa excelência seja reconhecida internacionalmente.

O teu equívoco, como gestor, está em pensar que uma recompensa colectiva estimula comportamentos individuais. Pelo contrário, se o estímulo é igual para todos, deixa o vizinho esforçar-se, que o palerma assim trabalha pelos dois...

Nós não somos uma equipa, discordo da analogia. Nós somos uma pequena sociedade, onde se interpenetram e interdependem funções, onde a sobrevivência colectiva beneficia a todos, onde cada função deve ser reconhecida e premiada atendendo ao seu carácter específico e onde os parasitas, aqueles que muito recebem mas pouco entregam, não têm lugar e, se existem, devem ser expostos e expurgados.

A melhor forma de proteger os piolhos é chamar-lhes pelos.

A camuflagem no anonimato sempre protegeu oportunistas e parasitas. A diluição da responsabilidade individual numa difusa responsabilidade colectiva (chame-se-lhe a equipa, ou grupo...) foi sempre o recurso dos medíocres - uma forma elaborada do exercício da inveja. Cá volto eu a lembrar-me do BIPtoon: se um sujeito põe a cabeça de fora, os outros puxam-no para baixo...

Pelo contrário, queremos estimular uma cultura do elogio. Uma cultura em que cada um de nós fique feliz com o triunfo do amigo e do vizinho, uma cultura do reconhecimento do mérito e da solidariedade no êxito.

Isto consegue-se, por entre outros processos, dando oportunidade a todos para tentar e discriminando positivamente quem alcança.

Sem inveja.

 

 

A Vós a Razão

Esta secção conta com a participação dos colaboradores que desejem colocar questões ou expressar opiniões relativas à sua actividade profissional. Todas as questões colocadas e publicadas serão respondidas pela figura do "Consultor do Leitor". As questões/opiniões podem ser enviadas para bip@inescporto.pt, não devendo ultrapassar os 4000 caracteres (espaços entre palavras incluídos). Se o autor da questão/reflexão assim o desejar, a Redacção do BIP pode garantir o anonimato. Nestes casos, o artigo será assinado como "Leitor devidamente identificado". A Redacção do BIP reserva-se o direito de seleccionar as contribuições recebidas, no seu todo ou em parte.