B o l e t i m Número 54 de Setembro 2005 - Ano IV
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O p i n i ã o  

A Vós a Razão
Colaborador partilha: “Entrei para o INESC Norte em 1986, convidado pelo meu amigo, então meu professor António Pereira Leite, inicialmente para trabalhar em tempo parcial. Rapidamente se concluiu que eu não sabia trabalhar nesse regime...”

Galeria do Insólito
Muitas são as histórias insólitas que chegam ao BIP... Desta vez, chegou-nos um e-mail de uma senhora muito amável, uma verdadeira “fada madrinha”, que nos vem solicitar emprego para o seu “protegido” que trabalha em Lisboa...

Asneira Livre
Colaboradora desabafa: “Provavelmente já terão ouvido falar na epidemia que grassa um pouco por toda a parte no edifício-sede do INESC Porto, com especial incidência no 4 andar, mais propriamente na área do DIL”

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Descubra nesta secção quem são os aniversariantes dos meses de Setembro e Outubro

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A  V Ó S  A  R A Z Ã O

20 anos no INESC Porto: um testemunho

Por João Ferreira*

Desta vez não pude recusar o convite da Sandra Pinto para escrever no BIP, não só porque anteriormente eu deixara essa possibilidade em aberto, mas mais ainda porque a Sandra me merece uma especial consideração pelo empenho que põe no seu trabalho, nem sempre correspondido em apoio institucional.

Entrei para o INESC Norte (Porto) no dia 3 de Fevereiro de 1986, convidado pelo meu amigo, então meu professor António Pereira Leite, inicialmente para trabalhar em tempo parcial. Rapidamente se concluiu que eu não sabia trabalhar nesse regime, pois passava os dias inteiros no INESC, pelo que os chefes (Borges Gouveia, José Salcedo, Pereira Leite e Pimenta Alves) acharam por bem que eu passasse a ser pago pelo tempo inteiro.

Nessa época a actividade principal do INESC Porto era o desenvolvimento de “hardware”, a electrónica digital rápida funcionava a 100MHz em lógica ECL e usar computadores era considerado um luxo. Os nossos clientes eram as telecomunicações, então TLP. Estávamos instalados no edifício da Livraria do Estado, na rua José Falcão, nos 4 e 6 pisos; ali não havia porteiro ou segurança e quem tinha a responsabilidade das chaves era o Alberto Maia, actualmente na FiberSensing. O Prof. Tribolet, mais conhecido por “Tribas”, fazia-nos visitas surpresa, percorria os laboratórios e perguntava: “O que é isso que estás a fazer?” ou “Então como corre o trabalho?”

Com a adesão de Portugal ao CERN (Centre Européen pour la Recherch Nucléaire) foi possível ao INESC Porto oferecer estágios nessa instituição a alguns dos seus colaboradores, entre os quais eu tive o privilégio de me encontrar e cujo pioneiro foi o António Gaspar, actual coordenador da USIC.

Após a conclusão do projecto SIFO e esgotados os recursos que daí vieram, o INESC Porto fez uma travessia do deserto e o Grupo de Optoelectrónica sofreu particularmente, com a ausência dos seus líderes iniciais, Pereira Leite e Salcedo e com o Sílvio Abrantes a ser empurrado para a liderança de uma área que não era a dele, mas que soube gerir com bom senso. Sucedeu-se então o regresso do Salcedo, a época dos Centros de Transferência de Tecnologia, início da viragem para o mundo empresarial, mas ainda num formato protegido que previa abundância de fundos do Estado ou da Comunidade Europeia os quais duraram pouco.

A componente formativa do INESC era uma das promessas dos seus responsáveis e uma expectativa dos mais novos. As primeiras edições do Mestrado em Telecomunicações da FEUP foram frequentadas por grande número de colaboradores do INESC Porto, a maioria dos quais o completou com sucesso; no meu caso quedei-me pela parte escolar.

Ao longo destes 20 anos, o INESC não promoveu só a formação dos seus colaboradores, também transmitiu os conhecimentos para o exterior. No início da década de 90 atingiu-se o pico da actividade de formação para o exterior, com o FUNDETEC, mas a formação por medida destinada a empresas ou grupos profissionais já existia antes e continuará para o futuro. Não sendo o INESC uma instituição de formação, penso que a formação especializada, é a que faz mais sentido e resulta naturalmente da actividade de I&D. Qualquer actividade lucrativa precisa de alguma motivação extra, segundo Henry Ford “um negócio que só produz dinheiro é um pobre negócio”.

A criação de empresas resultantes da actividade do INESC Porto em domínios especializados é também um objectivo já alcançado e uma consequência natural da actividade da Instituição. Eu próprio estou agora embarcado nesse pequeno bote que se chama FiberSensing o qual, remando certinho e com bons timoneiros, havemos de transformar, talvez num catamarã.

A matéria-prima de que se fez o INESC são os seus colaboradores, pode depreender-se do que atrás foi dito e tem sido reconhecido pelos seus dirigentes. Atravessamos, porém tempos difíceis nos quais pode suceder como dizia Einstein “É triste que sejamos forçados a tratar os seres humanos como cavalos onde o que importa é que sejam capazes de correr e puxar, sem olhar às suas qualidades como seres humanos”. Faço votos para que a tradição do INESC consiga contrariar as “tendências do mercado” neste domínio.

Em jeito de despedida quero testemunhar o que de melhor levo do INESC. Houve bons momentos ligados a sucessos nos projectos; conheci pessoas excelentes e fiz amigos; porém o que me faz mais feliz são as marcas indeléveis na formação das pessoas que eu vi passar pelo INESC e crescer profissionalmente, que eu hoje admiro e me orgulho de ter contribuído ainda que para uma ínfima parte dessa formação, humana e profissional.

As recordações menos boas já eu as esqueci, ou então processei e arquivei o resultado. Há, porém uma constatação que continua a incomodar-me, a de que, por vezes até mesmo essas pessoas excelentes, meus amigos que fazem o INESC Porto, sejam incapazes de ultrapassar certas divergências de opinião ou conflitos pessoais; são limitações da natureza humana, havemos de crescer!

Bem hajam, por tudo o que me deram, tenham muitos sucessos e até sempre.

PS: Se ainda houver espaço para algumas fotos, desafio-vos a tentarem identificar esses rostos do INESC Porto de há quase 20 anos.
 

O CONSULTOR DO LEITOR COMENTA
Amigo João Ferreira, o teu relato emociona silenciosamente, de simples, directo e genuíno que é. Pouco há a acrescentar, tu não vieste queixar-te, ou reclamar, ou protestar. Vieste oferecer um testemunho, e esse recolhe-se reverencialmente, não se questiona, absorve-se: é mais uma lição de vida.

Que foste feliz na tua opção, ou te tornaste feliz, é patente. Assim possam outros reconhecer-se no teu exemplo, e nas tuas saudades.

E que mais lhes oferece o teu exemplo: o de que ainda sonhas.

Tu não te retiras, não nos deixas, não abandonas o teu posto por cansaço, fadiga, esgotamento, saturação. Não vais para a reforma.

Vais sonhar de novo, nessa aventura empresarial da FiberSensing. Diz lá se não te sentes, de repente, muito mais novo?

 

* Colaborador da Unidade de Optoelectrónica e Sistemas Electrónicos (UOSE)

Nota da Redacção do BIP – O nosso amigo João Ferreira enviou-nos um conjunto de fotos antigas que são uma autêntica relíquia. Não as poderemos disponibilizar a todas nesta secção, mas planeamos divulgá-las no próximo número do BIP, para regalo dos colaboradores mais seniores. Ficarão igualmente disponíveis no Arquivo Fotográfico da Intranet



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